Depois do Trauma

Ana G.

Arquivo de Junho, 2007

Modelo Transaccional de Lazarus

Publicado por Ana G. em Junho 27, 2007

MODELO TRANSACCIONAL DO STRESSE: MOMENTO QUE ANTECEDE AO REINICIO DA SEXUALIDADE DO LESIONADO VÉRTEBRO-MEDULAR.

Ana Garrett 

Psicóloga, Doutoranda em Psicologia Clínica

Bolseira de Investigação Científica Pela Fundação Para a Ciência e a Tecnologia

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – UFP

16022@ufp.pt

Resumo:

O auto-conceito é um factor determinante que se encontra directamente relacionado com a forma como o sujeito se vê e crê que os outros o percepcionam. Determinadas estratégias são organizadas de forma a transformarem-se em mecanismos de coping com o objectivo de diminuir o impacto de um evento altamente stressor.

Este artigo visa demonstrar a adaptabilidade do Modelo Transaccional de Lazarus no momento que antecede ao reinício da actividade sexual pós lesão vértebro-medular.

Abstract:

Self-concept is a fundamental issue and it is directly related to the way the patient sees himself and believes others see him. Several strategies are organised so that they can be changed into coping mechanisms with the purpose of diminishing the impact of a highly stressor event.This article has the purpose of showing the adaptability of the Lazarus Transactional Model before the restart of sexual activity after spinal cord injury. 

1. Enfrentar perdas em si mesmo 

A auto-imagem após uma lesão vértebro-medular pode ser drasticamente abalada. O sujeito enfrenta um processo de reconstrução de um mundo que não faz sentido para si depois da perda que sofreu, nomeadamente ao nível da mobilidade, do controlo de esfíncteres e da disfunção sexual (Miller, 2006). Entre outros, acrescem factores de ordem íntima, como os cuidados de higiene, que poderão vir a ser prestados por outro que não o próprio, invadindo assim, a intimidade do sujeito, criando sentimentos de vergonha, dependência e menos-valia.

A dissociação do seu corpo é comum inicialmente. Isto é, o lesionado vértebro-medular apresenta dificuldades em identificar-se com a sua nova imagem e integrar um novo corpo que não reconhece como seu. Os sentimentos de negação são muito frequentes nesta fase e de difícil contorno, pois a ideia que possui um corpo que “funciona mal” reflecte-se nos relacionamentos, provocando inúmeras vezes o isolamento e estados depressivos continuados (Carvalho e Andrade, 1998).

As relações sociais são percepcionadas como complicadas devido à nova condição e à nova imagem corporal. As relações amorosas apresentam-se como sendo quase impossíveis. Nesta fase é importante o recurso à informação médica e psicológica de forma a combater estados alterados de humor e motivar o paciente para uma reabilitação holística, predictiva de redução de problemas futuros. Aqui é de salientar que o papel do auto-conceito é preponderante, dado que é composto por todo o material que pensamos que somos: a auto-imagem, o que julgamos que conseguimos alcançar e, mais determinante que qualquer outro factor, aquilo que cremos que os outros poderão pensar de nós (Vaz Serra, 1988a).

Esta adaptação à sua nova condição é extremamente influenciada pelos recursos de coping que o sujeito possuí, nomeadamente a sua rede social e emocional que, embora estejam presentes na vida do individuo, não devem de forma nenhuma substitui-lo na sua recuperação. O princípio da reciprocidade é o meio-termo desejado, ou seja, o sujeito oferece ao cuidador o seu empenho e capacidades para a reabilitação e o cuidador auxilia-o e orienta-o nos momentos cruciais.

Uma lesão vértebro-medular representa uma enorme perda de controlo da sua própria vida e numa primeira fase o doente é cuidado por outros que devem esforçar-se para promover uma boa recuperação a todos os níveis. Lentamente, o doente deve dar inicio ao seu processo de reabilitação física, propriamente dito, isto é, aprender a fazer transferências, aprender a circular em cadeira de rodas e a vencer inúmeros obstáculos, tratar tanto quanto possível da sua própria higiene e controlar os esfíncteres. Começam, então, a surgir questões de ordem íntima e surge a vontade de reiniciar a sua actividade sexual (Alves, Guedes e Alves, 1999).

À medida que se vai aproximando a possibilidade de reiniciar a actividade sexual, a pessoa interpreta esse momento como uma ocorrência que causa ansiedade. A forma como o seu novo corpo irá reagir, a resposta do parceiro perante o seu comportamento, todas estas questões povoam o pensamento durante um largo período de antecipação. A importância de uma preparação técnica prévia, incentivando o doente a expor as suas dúvidas com o intuito de o preparar para eventuais situações inesperadas de momento, é encontrada na utilização do Modelo PLISSIT (Annon, 1981), facilmente manuseável pelos técnicos que rodeiam o doente (Garrett e Teixeira, 2006).

1.1.  Recursos pessoais e sociais de coping  

Na generalidade, quando ocorre um evento traumatizante na vida de um indivíduo, existem dois tipos de recursos que permitem a readaptação e a reintegração. São eles os recursos de nível pessoal e os recursos de nível social. Nos recursos de nível pessoal encontram-se as crenças que o sujeito tem acerca das suas próprias capacidades. O optimismo, o locus de controlo interno e as competências de auto-eficácia são variáveis presentes. Se o lesionado vértebro-medular percepcionar algum tipo de subjectividade na disponibilidade destes recursos, torna-se vulnerável e a sua reabilitação está em perigo, com momentos de raiva, ansiedade e locus de controlo externo.

Os recursos de ordem social apresentam-se como sendo a integração na sociedade e o suporte que pode obter dos seus pares, nomeadamente ao nível dos relacionamentos amorosos. Na ausência destes, a solidão e o humor depressivo, a falta de motivação para a reabilitação, torna-se frequente e estável no tempo.

No quadro abaixo representam-se esquematicamente os recursos possíveis que conferem ao sujeito mecanismos de suporte perante um acontecimento que contenha níveis elevados de stresse:

   

Optimismo

- Acarreta influências que permitem à pessoa enfrentar as problemáticas com uma atitude positiva;

- Implica expectativas positivas relativamente aos resultados esperados;

- Influencia a escolha das estratégias de coping;

- Permite que a pessoa sinta motivação para planear o futuro

   

Locus de controlo

- Implica expectativas acerca das consequências das atitudes;

- Implica expectativas acerca de factores que não dependem nem são controlados pela pessoa;

- Implica atribuições de causalidade interna e externa ao sujeito;

- A percepção de determinado locus de controlo determina escolha dos mecanismos de coping a utilizar

 

Auto-eficácia

- Influencia a avaliação do elemento stressor e da capacidade que o sujeito tem em o ultrapassar;

- O nível de confiança do sujeito é motivador e regulador dos seus comportamentos;

- O nível de auto-eficácia está directamente ligado ao sucesso ou insucesso na resolução da problemática

  

Suporte social

- Comporta aspectos qualitativos e funcionais;

- Compõe-se de suporte emocional, suporte tangível e suporte informativo;

- Avaliar os aspectos positivos e negativos de uma extensa rede social;

- Elevados graus de intimidade e satisfação social facilitam a transacção

Quadro 1 – Recursos de suporte perante níveis elevados de stresse.

1.2. Factores psicológicos envolvidos no período de antecipação 

Lazarus e Folkman (1984) ao desenvolverem o Modelo Transaccional do Stresse tiveram como base as transacções operadas entre o sujeito e a situação. Este modelo, não sendo unidireccional, avalia os processos de coping perante eventos stressantes. As experiências tidas como desencadeadoras de stresse são compostas de transacções feitas entre o indivíduo e o meio que o rodeia e dependem do impacto que o evento stressor provocou.

Transportando a aplicabilidade deste modelo para o reinício da actividade sexual nos indivíduos com lesões vértebro-medulares, verifica-se a ocorrência de uma primeira avaliação, que se traduz na forma como a pessoa encara este acontecimento: o sujeito analisa a forma como se sente perante tal situação e o grau de ansiedade que o evento acarreta, isto é, se é controlável, se é desafiador ou se é irrelevante.

Ao percepcionar que é capaz de enfrentar o evento, o sujeito procede à avaliação das opções e recursos que possui para lidar com a problemática e, praticamente ao mesmo tempo, executa uma segunda avaliação já incluindo factores de ordem social e cultural que irão ser utilizados como esforços de coping que o poderão auxiliar. (Lazarus, 1991).

Após elaboradas as avaliações, o indivíduo recorre à sua regulação emocional que transforma em instrumentos capazes de alterar a forma como o evento stressor é sentido por si. Imediatamente a seguir a este momento acontece o que se pode chamar de pesquisa de material informativo, ou seja, o indivíduo pode ter expectativas de ser informado e manifestar interesse por apreender informações úteis à resolução do seu problema. Por outro lado, pode não manifestar interesse nem motivação para apropriar conhecimento acerca da temática que o perturba. Este segundo aspecto prediz complicações generalizadas no processo de reabilitação. (Lazarus e Folkman, 1984).

Os estilos de coping à disposição e o significado de base do coping fundem-se na medida em que ambos são processos comportamentais que podem influenciar negativa ou positivamente as emoções e as atitudes perante o problema. É justamente o alvo de influência (emoções e atitudes) que diferencia estes dois conceitos. Os estilos de coping à disposição prendem-se com questões de ordem mais emocional que darão origem à resposta funcional; enquanto que o significado de base do coping é um instrumento que induz a comportamentos, isto é, motivam o indivíduo a munir-se de mecanismos de coping (Pereira e Araújo, 2005).

É de salientar a subjectividade deste processo, isto é, a percepção do evento stressor depende da avaliação que o sujeito faz. Em casos de lesões vértebro-medulares baixas e incompletas, onde existe alguma preservação de sensibilidade na zona genital, o reinício da actividade sexual pode ser amplamente menos stressante do que lesões altas e completas, onde a sensibilidade é inexistente. Outro factor de extrema importância prende-se com o facto do indivíduo se dispor a reiniciar a sua vida sexual com uma companhia pré-existente à lesão e com quem já possui um grau de intimidade e cumplicidade bastante solidificado, ao contrário de outro que reinicia essa actividade com um novo relacionamento. 

Seguidamente apresenta-se uma adaptação do esquema desenvolvido por Glanz, Rimer e Lewis (2002) onde é apresentado o Modelo Transaccional do Stress de Lazarus:

Conceito Definição
 1ª avaliação Avaliação do significado do evento stressor e o grau de ansiedade que pode causar ao sujeito.
 2ª avaliação Avaliação do grau de controlo que o individuo possui perante o evento stressor e os recursos ao seu dispor para enfrentar a problemática.
 Esforços de coping Estratégias utilizadas para mediar a primeira e a segunda avaliação.
 Regulação emocional Estratégias alcançadas para modificar a forma como o evento stressor é percepcionado e vivenciado pelo individuo.
  Procura de informações Estilos de pessoas que são atentos e vigilantes em relação ao seu problema de forma a resolvê-lo versus estilos de pessoas que evitam o conhecimento e não manifestam qualquer tipo de interesse em resolver o seu problema.
 Estilos de coping à disposição  Formas gerais de comportamento que podem afectar negativa ou positivamente as repostas emocionais e funcionais do sujeito perante as situações. Apresenta estabilidade ao longo do tempo.
 Significado de base do coping Processos que induzem o indivíduo a ter uma atitude positiva perante o problema no sentido de o motivar a desempenhar os mecanismos de coping.
 Gestão do problema Estratégias usadas directamente para enfrentar e modificar o curso do problema de acordo com os desejos do sujeito.
 Optimismo Tendência para possuir expectativas positivas em relação aos resultados que se pretendem atingir
 Resultados Bem-estar emocional; comportamento saudável; objectivo funcional atingido.

Quadro 2 – Esquema do Modelo Transaccional do Stress, adaptado de Glanz, Rimer e Lewis (2002).

2. Conclusão 

A especificidade do Modelo Transaccional comporta dois processos cognitivos: na primeira avaliação que o sujeito faz da situação pode elaborar conceitos de ameaça, de angústia e de ansiedade, bem como de desafio, de motivação e de vontade de vencer os obstáculos. Logo que esta interpretação cognitiva é processada, uma segunda avaliação é determinada pela capacidade que o indivíduo crê possuir em colocar em acção determinados mecanismos de coping que o ajudarão a enfrentar o acontecimento stressor.

Da literatura consultada e apresentada neste trabalho, podemos sugerir que as avaliações negativas que o sujeito elabora, como sendo, ansiedade, angústia, desespero e descrença perante o reinicio da sua actividade sexual, podem estar directamente ligadas com um locus de controlo externo, assim como as avaliações tidas como positivas, nomeadamente, o desafio e a motivação para ultrapassar esse efeito stressor, poderão indicar indivíduos com locus de controlo interno.

A auto-eficácia e o suporte social são, também, dois factores de extrema importância, já que o primeiro permite um nível de confiança adequado ao grau de sucesso que se pretende atingir e o suporte social confere ao sujeito aspectos qualitativos da sua rede social que conduzem a transacções tidas como satisfatórias para esta problemática.

 3. Bibliografia 

Alves, A., Guedes, M., Alves, V. (1999). Um estudo sobre a satisfação sexual de pessoas portadoras de lesão medular. In: Acta Fisiátrica, Vol, 6, Nº 1, pp. 6-9. 

Annon, J. (1981). PLISSIT Therapy. In: Corsini, R. Handbook of Innovative Psychotherapies. New York, John Wiley & Sons Inc., pp.626-639. 

Bandura, A. (1997). Self-efficacy: the exercise of control. New York: W.H. Freeman. Carvalho, S., Andrade, M. (1998). Spinal cord injury and psychological response. In: Gen. Hosp. Psychiatry, Vol. 20, Nº 6, Novembro, pp.353-359. 

Garrett, A., Teixeira, Z. (2006). A utilização do modelo PLISSIT na abordagem da sexualidade do lesionado vértebro-medular por trauma. In: Revista da FCHS – UFP, Vol. 3, pp. 237-244.

Glanz, K., Rimer, B., Lewis, F. (2002). Health behavior and health education: Theory, Research and Practice. San Francisco: Wiley & Sons. 

Lazarus, R. (1991). Psychological Stress and Coping Process. New York: McGraw Hill. Lazarus, R., Folkman, S. (1984). Stress, Appraisal and Coping, New York: Springer 

Miller, E. (2006). Who adjusts?. In: SCI Psychosocial Process, Vol. 19, Nº 1.

Pereira, M., Araújo, T. (2005). Estratégias de enfrentamento na reabilitação do traumatismo raquimedular. In: Arq. Neuro-Psiquiatria. Vol. 63, Nº 2b, pp. 502-507. 

Vaz Serra, A. (1988a). Atribuição e auto-conceito. In: Psychologica, Vol.1, pp. 127-141.

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Portas de Sto. Antão :)

Publicado por Ana G. em Junho 23, 2007

Na semana que se avizinha irei dar um passo importante na minha vida académica. Oxalá seja a melhor escolha…

A vontade indomável de investigar obriga-me a deixar tudo o resto para segundo plano e, a determinada altura, temos mesmo que tomar decisões importantes e definitivas.

Eis que chegou a hora.

Regresso dentro de momentos com novidades mais concretas :)

Agora, sabem o que vou fazer? Sair a pé por esta Lisboa fora, aproveitar este sol fantástico de fim de tarde e comer CARACÓIS! Ai que saudades de caracóis à moda da minha terra :)

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Mudar é Bom.

Publicado por Ana G. em Junho 17, 2007

Não tenho comentários negativos a fazer acerca do Blogspot… até porque não sou uma mulher ingrata :) , porém para o que pretendo fazer em termos de publicações de Doutoramento o WordPress é bastante mais apelativo e contém opções de certa forma mais interessantes. Espero é ter tempo para explorar tudo :)

Portanto, aqui estou eu, num blog que segue dentro de momentos… deixando em aberto o primogénito, para quem quiser passear por lá once in a while…

Até já.

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