Não prestem atenção à imagem porque foi obtida por telemóvel. O som está razoável. O fim da comunicação não coube na memória…
Foi o que se pôde arranjar
Publicado por Ana G. em Outubro 21, 2008
Não prestem atenção à imagem porque foi obtida por telemóvel. O som está razoável. O fim da comunicação não coube na memória…
Foi o que se pôde arranjar
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Publicado por Ana G. em Junho 19, 2008
“… parece que o meu orgasmo agora é mais prolongado, parece que dura mais tempo, não sei explicar… é como se tivesse algum dispositivo dentro de mim que me aumentasse a duração, mas tivesse diminuído a intensidade com que o sinto. Nem sei se deva chamar orgasmo, é mais longo mas não tão forte, percebe?”
Percebo, claro. Os livros não explicariam melhor!
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Publicado por Ana G. em Maio 22, 2008
Tenho que aprender tudo outra vez sobre o sexo, senão acho que o meu marido vai tratar-me como uma deficiente e não vai querer tocar-me. Assim quero mostrar-lhe que fiquei sem andar, mas não sem sexualidade!
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Publicado por Ana G. em Maio 11, 2008
“… Esta deficiência é demasiado grande para considerar uma relação amorosa. Quando se tem uma relação tem que se estar convencido que se deve dar e receber na mesma proporção; com pessoas como eu existe demasiado receber e muito pouco dar…”
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Publicado por Ana G. em Abril 28, 2008
«Que tetra não sonha ter ficado “só” paraplégico?»
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Publicado por Ana G. em Abril 8, 2008
Não sei o que de repente se passa com as miúdas… todas me querem… é estranho, nunca pensei que isso me acontecesse. Porque é que todas me acham piada agora que estou numa cadeira de rodas?
M., 21 anos, LVM-T2
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Publicado por Ana G. em Março 19, 2008
Já consigo mexer um bocadinho uma perna, mas a médica diz que ainda não viu nada. Eu tenho a certeza que sim, eu vi e senti, ela diz que não é possível. E os meus braços? Não acha que já fizeram muitos progressos? Estou muito confiante!
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Publicado por Ana G. em Março 5, 2008
“Numa folha de papel em branco, amachucada ‘n’ vezes, conto todas as suas rugas como amarguras que carrego na minha vida. Conto-as não para as chorar, mas para me transformar num ser humano melhor. Assim vou sendo, resilientemente optimista.”
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Publicado por Ana G. em Fevereiro 15, 2008
“… nunca acreditei que me pudesse acontecer, eu sei que você disse que aconteceria mais tarde ou mais cedo, mas eu pensei que como não sinto nada da cintura para baixo, fosse impossível apaixonar-me por alguém. E agora estou completamente apanhadinho por aquela rapariga e o mais incrível é que parece que ela também está por mim…”
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Publicado por Ana G. em Fevereiro 11, 2008
“Preferia ter morrido. E isso ainda não está fora de questão.”
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Publicado por Ana G. em Janeiro 31, 2008
… por momentos pensei: até posso tirar benefícios disto, ser o coitadinho, ter a atenção de toda a gente, sempre rodeado de todas as atenções… e de facto ao princípio até foi assim, mas com o passar do tempo os amigos foram deixando de aparecer, os meus pais recomeçaram a trabalhar, a minha namorada foi para Erasmus e a minha vida diária era passada com uma desconhecida contratada para me prestar cuidados. E é assim até hoje, 2 anos depois do acidente, estou e só uma pessoa só.
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Publicado por Ana G. em Janeiro 25, 2008
“… eu não fui fazer lá nada, fui influenciado pelos amigos e familiares que ouviam falar de Cuba como se fosse Meca e acabei por ter que ficar lá 3 meses. Fiz exactamente o que faço agora aqui, nem mais nem menos e ninguém me falou em operação nenhuma. Lá são todos muito agradáveis porque precisam que o mundo inteiro lá vá senão como é que andam para a frente? Não sei… quem quiser ir que vá, mas olha que eu não fiz lá nada de especial…”
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Publicado por Ana G. em Janeiro 19, 2008
Um mês depois do acidente, ainda estava nos HUC, o P. perguntou-me se eu iria sentir a minha vagina como antes. Fiquei a olhar para ele, com muita, muita, muita pena de mim mesma. Percebi tudo…
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Publicado por Ana G. em Janeiro 10, 2008
Quando eu cheguei aqui só me apetecia chorar. Eram tantos os que estavam tão mal à minha volta que só pensava [meu Deus, o que será de mim?]. Tinha muita vontade de desistir de tudo e ir para casa e chorava, chorava. Agora quando vocês aparecem na visita da manhã, tremo só de pensar que me podem dar alta. Por aqui diz-se que quando nos dão alta isso quer dizer que não há mais nada a fazer…
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Publicado por Ana G. em Dezembro 18, 2007
…
Para utilizar a NFI deve-se começar por anotar as 4 colunas verticais que organizam cada uma das entradas:
| Termo | Definição | Esquema | Exemplo |
|
Este é o elemento da narrativa que a entrada descreve e que mais tarde resulta numa ‘variável narrativa’ para a análise da matriz. |
Esta é uma lista das várias características dos termos narrativos, enfatizando as definições mais acessíveis para o investigador. |
Esta é a codificação da experiência baseada na forma narrativa que permite um modo perceptivo organizado do contexto. As perguntas esquemáticas desta coluna permitem ao utilizador verificar se os principais critérios foram alcançados e assim se a forma narrativa foi reconhecida cognitiva e objectivamente. Nem todos os critérios devem ser conhecidos para determinar a forma, mas formas mais óbvias conhecerão a maioria dos critérios. |
Esta coluna promove uma ilustração da forma narrativa, para elucidar a definição e permitir a prática para o investigador, aplicando os critérios. |
O NFI inclui 52 formas narratologicas (NS), seguidas de 43 formas contextuais (CS) e 18 elementos holisticos (HS). As 52 formas narratologicas são subcategorizadas adicionalmente por tipo de narrador, tempo, características de espaço ou de situação, forma narrativa e fluxo. As CS incluem subcategorias acerca do modo como as narrativas são moldadas, ambiente de referências e relação. As HS incluem subcategorias de características genéricas e expandidas.
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Publicado por Ana G. em Dezembro 10, 2007
…
NFI – B version – interpretação das narrativas em lesões vértebro-medulares
Aspectos que devem estar presentes no NFI:
Para agrupar conceitos a NFI é organizada em 3 sub-índices de narrativas:
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Sub-índice narratológico (NS) |
Sub-índice contextual (CS) |
Sub-índice holístico (HS) |
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Narrativa como texto |
Narrativa como contexto |
Narrativa completa |
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Marcas Modelos Estruturas Desenvolvimentos Tempo e espaço Autores, etc |
Ambiente Interior/exterior Narrativa Textos aliados Referencias Alusões, etc |
História Mensagem Impressão Metáforas Temas Aparências, etc |
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Publicado por Ana G. em Novembro 19, 2007
“(…)
- Começaste a lidar com a realidade da tua lesão, já estás aqui há algum tempo… qual é a dificuldade maior? O que é mais doloroso para ti?
- Não sentir as partes que eu curtia sentir.
- Que partes?
- O rabo e o pénis.
- Isso é o que te chateia mais?
- Sim.
- Como é que está a questão do controlo dos esfíncteres?
- Não custa muito mas eu não me estou a ver assim a fazer estas cenas quando sair daqui.
- Mas vais fazer.
- Também não me estou a ver fazer a minha vida de cadeira de rodas, não sei, acho esquisito.
- O teu futuro?
- Sim, tudo, não me tou a ver.
- Mas agora é natural, é um período de adaptação…
- Mas tu nunca te consegues adaptar a isto.
- Como sabes?
- Sei lá, eu penso, é verdade, tu nunca te consegues adaptar a uma coisa destas que te aconteceu. Vais tentar mentalizar-te que tem que ser assim.
- E é isso que tu tens estado a fazer?
- Mais ou menos.
- Como é que fazes isso?
- Eh… tento falar mais com os meus colegas mas ao mesmo tempo vai-me metendo mais mal.
- A falta de sensibilidade do pénis.. em que pensas que isso vai influenciar o teu futuro?
- Nunca mais me vou sentir à vontade com ninguém.
- Mas existem imensas técnicas para resolver essa situação…
- Ai é? O quê?
- Depende, tem que se estudar o teu caso…
- Mas isso… hum… ó pá… não sei… fico muito inseguro.
- Era uma coisa muito importante para ti?
- Era uma daquelas coisas que fazia parte do curtir a vida.
- Praticavas sexo com muita frequência?
- Mais ou menos. E agora tipo já não ligo às gajas, tipo já não me diz nada, aprecio mas não me diz nada.
- Então quer dizer que as miúdas representavam o teu pénis a funcionar… é? Pénis igual a miúdas… miúdas igual a pénis…
- Não… é um bocadinho, mas não é tudo… já não me entusiasmam, já não há aquela cena em conhecer uma gaja, Dantes até tinha gozo em conhecer uma gaja, agora já não.
- Mas isso tem a ver com o teu pénis ou com a tua insegurança?
- Com tudo.
- Sentes-te diminuído em relação aos outros rapazes?
- Também. Tem a ver com tudo, com tudo.
- Sabes que com o tempo as coisas vão ao lugar e tu ainda tens muito pouco tempo de lesão e ainda estás muito triste com todas essas coisas. Se pudesses o que fazias agora?
…
- Olha fechava-me em casa e não saía de lá.
(…)”
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Publicado por Ana G. em Outubro 27, 2007
“Soube desde o primeiro momento que bati naquela rocha o que iria ser a minha vida. Houve 2 ou 3 dias que não me lembro de nada e foi bastante complicado quando comecei a recordar-me das coisas. Depois pensei que podia sair da cama e andar por ali; nunca tinha estado antes num lugar tanto tempo sem me poder mexer. A traqueotomia foi a coisa pior, foi realmente assustador. Tentava dizer uma coisa e todos percebiam outra e isso foi muito frustrante, ficava tão zangada… era como se não conseguisse nunca mais comunicar com ninguém.Toda a gente me disse que as coisas iriam melhorar mas eu nunca acreditei em ninguém que me dissesse isso, foi como se estivesse a lutar contra eles, mas nunca consegui acreditar. Não ser capaz de fazer as coisas por sozinha e ter que aceitar que façam por mim, deixou-me desesperada e muito desanimada, como se fosse um bebé…
Foi um longo período de incertezas…”.
J., 28 anos, tetraplégica, acidente de mergulho.
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Publicado por Ana G. em Outubro 19, 2007
“Ele abandonou-me quando eu mais precisava, foi logo alí no hospital ainda eu nem sabia bem o que tinha… veio muito mansinho com a conversa que devíamos dar um tempo e que as coisas não andavam bem. Eu virei-me a chorar e disse-lhe DESAPARECE! Até hoje nunca mais quis ouvir falar dele… parece que afinal quem pôs um ponto final naquilo até fui eu…
Depois conheci o F. que ia levar a irmã todos os dias à reabilitação e começamos a conversar e ele tinha muito sentido de humor. Nessa altura eu já conseguia deslocar-me sozinha com a cadeira, os braços já ajudavam e íamos até lá fora apanhar um pouco de sol e conversar. Comecei a ansiar todos os dias pela hora da reabilitação da A. só para o ver e ele também me parecia entusiasmado. Um dia beijou-me, assim tão quente, antes de ir embora e disse-me que nunca pensou sentir aquilo por alguém assim… Hoje é meu marido, ama-me, protege-me, acarinha-me e diz-me todos os dias que eu sou a mulher da vida dele e que sem mim a vida não tinha graça nenhuma e era pálida como antes.
Agora eu dou graças a Deus por aquele canalha me ter mostrado que não prestava e por eu ter tido a coragem de o afastar de vez do meu coração!…”
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Publicado por Ana G. em Outubro 13, 2007
Choque ou Negação?
“… quero ficar no meu canto, não quero ver nem falar com ninguém e ainda dou um tiro na cabeça…”
20 anos, lesão com 2 meses.
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Publicado por Ana G. em Outubro 4, 2007
“Certa altura, ouvi uma análise muito interessante que estabelecia paralelismo entre os ritmos da Natureza e algumas acções involuntárias do Homem. Resumidamente, quanto maior a ligação dos povos à terra, maior a sincronia entre ambas. Desta forma, as estações do ano, a mudanças de temperatura, a alteração do número de horas de Sol, os diferentes alimentos ao longo do ano, o ciclo da Lua, induziam reacções espontâneas por parte da quem com elas convivia quotidianamente. Daí as cerimónias ligadas aos Solstícios e Equinócios, a amálgama de rituais de fertilidade da Terra e do Homem, as fases da Lua a orientarem a sementeira, o plantio, a rega, a colheita, e altura de parir! Hoje em dia, a menstruação vem quando vem, desde que chegue no dia certo. Antes, esse dia certo acertava contas com as contas da Lua, e coincidia com a altura dela ‘virar’. Os ‘mandamentos da Natureza’ criaram no Homem actos quase inatos – muitos deles reconvertidos em actos religiosos. Acho, que por mais urbana que eu seja, a Lua, o Sol, e as estações do ano influenciam muito o meu estado de espírito. Para mim, o Outono é difícil. As horas de Sol diminuem, as nuvens multiplicam-se, chegam os dias húmidos, ameaçadores, carrancudos… é a alteração mais brusca do anoDepois, quando o Inverno chega, o corpo já se habituou às temperaturas mais baixas, ocupa-se o pensamento com prendas, festas, balanços e projectos. No final de Dezembro já se nota o dia prolongar-se, chega o frio com muita luz e Sol, tudo promete dias melhores!
Brinco muitas vezes – a sério, que faltam-me janelas!”
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Publicado por Ana G. em Setembro 15, 2007
“Alguns anos depois do acidente, tive a sorte de voltar à praia. Difícil foi habituar-me à ideia de não poder usufruir como dantes – mas isso aconteceu um pouco com tudo!Penso pertencer à classe de deficientes veteranos de praia. O ‘primeiro’ retorno aconteceu há cerca de 17 anos. Depois, houve anos sim outros não, até que de há 7 anos para cá, vamos – eu levada pela minha irmã – para a mesma praia. Com auxílio de ajudantes à pressão, lá tenho ido estender-me na areia – molhar-me era complicado (ah! agora com o ‘anfíbio’ já não me posso queixar, a não ser da pequenez da época balnear!)
Agora já é quase possível passar-se despercebido. Então, a confusão começava de imediato, mal avistavam uma cadeira de rodas tão próxima à areia. Depois, o ritual de ‘passagem para a areia’ era acompanhado, em pormenor, pelos veraneantes. Para “ajudar à festa”, sempre usei biquini. Bom, passadas algumas horas, já as atenções tinham desviado para algo mais interessante! Hoje em dia, felizmente, as coisas já não são bem assim!
…enquanto estou deitada na areia, com todo aquele azul a entranhar-se nos poros e a brisa a refrescar e relembrar que ali há um corpo, quase esqueço como estou, e que as pernas sem músculos não deixam dúvidas para quem olha e compara.”
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